O que realmente importa?

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Um país desarrumado

A morte de David Duarte fez-nos reparar na dependência que a nossa vida tem de estruturas burocráticas — a relação assustadora entre as tarefas administrativas (como a gestão de horários) e os números da negligência médica. Somos confrontadas com o carácter frágil da vida que nos desabituámos de encarar, e a dimensão da nossa interdependência. Esta não terá sido uma morte em vão se nos conseguir unir para repensarmos essas estruturas, para juntos as melhorarmos e evitar futuros desastres.

Infelizmente o debate público é outro: como é costume, atribui-se culpas com indignação, de forma imediata. Mas esta discussão tem uma particularidade incomum: em vez de se unir o povo em uníssono atribuíndo toda a culpa ao governo como é tradicional, vemos instalada uma guerra de profissões, com declarações do tipo “eu tenho piores condições de trabalho que tu, tu és um tuga privilegiado e ganancioso”. O país acorda da ilusão e apercebe-se de que a profissão de médico, uma das mais importantes e, por isso, mais protegida e privilegiada, está afinal numa situação de grande precariedade. Todo o fervor comparativo faz esquecer qualquer sentimento anterior de solidariedade…

União? Longe disso. Não somos capazes de assumir uma responsabilidade partilhada pela morte do David, tal como não somos capazes de assumir responsabilidade pela desarrumação em que deixámos o nosso país. Fazemos o nosso trabalho a despachar, sem rigor e sem vontade de fazer bem, e é exactamente esse o contributo de cada uma de nós para o grande caos, que um dia vai impedir que sejamos tratados com a celeridade necessária num episódio de urgência.

A imagem sorridente de David é agora o símbolo trágico de um país em que se deixa andar. E a culpa pela morte dele é minha, é nossa.

Tomás Barão