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O que significa “O meio é a mensagem?” (2)

“Agora, gostaria de dar apenas um exemplo de como a tecnologia cria novas concepções do que é real e, neste processo, mina concepções mais antigas. Refiro-me à prática aparentemente inócua de atribuir notas ou pontuações às respostas que os alunos dão nos exames. Este procedimento parece tão natural à maioria de nós que mal nos damos conta do seu significado. Podemos mesmo considerar que o número ou a letra seja um instrumento ou, se quisermos, uma tecnologia; e, quando usamos uma tal tecnologia para apreciar e julgar o comportamento de outrem, nem sequer consideramos que fizemos algo de peculiar. A talhe de foice, saliente-se que o primeiro exemplo da classificação de exames estudantis ocorreu na Universidade de Cambridge, em 1792, por sugestão de um tutor chamado William Farish. (…) Se podemos atribuir um número à qualidade de um pensamento, então podemos também dar um às qualidades da misericórdia, amor, ódio, beleza, criatividade, inteligência, da própria sanidade. Quando Galileu disse que a linguagem da natureza se encontra escrita matematicamente, não estava a incluir o sentimento humano, a realização pessoal ou o pensamento de cada um, mas a maioria de nós parece agora inclinada a fazer tais inclusões. Os nossos psicólogos, sociólogos e educadores consideram quase impossível levar a cabo o seu trabalho sem números. Acreditam que sem eles não podem adquirir ou expressar um conhecimento autêntico.

“Não discutirei aqui se esta é uma ideia estúpida ou perigosa, mas apenas que é peculiar. O que é ainda mais peculiar é que tantos de nós não achem a ideia peculiar. Dizer que alguém devia fazer um trabalho melhor porque tem um QI de 134 ou que se situa a 7,2 numa escala de sensibilidade, ou que o ensaio deste homem sobre o aparecimento do capitalismo é um A- e que o daquele outro é um C+ deveria ter parecido chinês a Galileu, a Shakespeare ou a Thomas Jefferson. Se a nós faz sentido, isso é porque as nossas mentes foram condicionadas pela tecnologia dos números, pelo que vemos o mundo de um modo diferente do deles. A nossa compreensão do que é real é diferente, que é outra maneira de dizer que enraizado em cada instrumento está um preconceito ideológico, uma predisposição para construir o mundo como uma coisa em vez de outra, para avaliar uma coisa sobre a outra, para ampliar o nosso senso, a nossa capacidade ou atitude de uma forma mais manifesta que outras.

“É a isso que Marshall McLuhan se referia com o seu famoso aforismo: «O meio é a mensagem.» Era isto que Marx queria dizer quando afirmou: «A tecnologia revela o modo como o homem lida com a natureza» e cria «as condições de uma relação» pela qual nos posicionamos uns aos outros. Era o que Wittgenstein tinha em mente quando, ao referir-se à nossa tecnologia mais fundamental, dizia que a linguagem não é meramente um veículo de pensamento mas também o condutor. É o que Tamuz desejou que o inventor Thoth visse. Em suma, é uma antiga e persistente peça de sabedoria, talvez mais simplesmente expressa no velho adágio de que a um homem com um martelo tudo se parece com um prego. Sem querer ser tão literal, podemos alargar o truísmo: para um homem com um lápis, tudo se parece com uma lista; para um homem com uma câmara, tudo se parece com uma imagem; para um homem com um computador, tudo se parece com dados informáticos; e para um homem com uma folha graduada, tudo se parece com um número.”

Tecnopolia – Quando a Cultura se rende à Tecnologia, Neil Postman. 1994, Lisboa: Difusão Cultural

Para poder relacionar com o artigo anterior (O que significa "O meio é a mensagem?" (1)) proponho a seguinte dedução: aos olhos de uma jornalista de televisão, tudo será parecido com o tipo de notícias que a passam no telejornal. Isso implica que o meio televisivo está completamente desprovido de potencial disruptivo?

Tomás Barão