O que realmente importa?

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O hino é uma arma, e Portugal tem dois

Invasão de Praga '68

Fotografia de Josef Koudelka.

A população de Praga, surpreendida e assustada pela violência das invasões dos tanques do Pacto de Varsóvia em Agosto de 1968, canta o hino nacional como forma de protesto.

O que há mais poderoso e não-violento do que cantar? Cantar é das formas de protesto mais inteligentes.

Nos ataques terroristas recentes em Paris, “La Marseillaise” também foi uma arma, tendo sido cantado no Stade de France, bem como tocado pela Orquestra Metropolitana de Nova Iorque no domingo seguinte como homenagem.

Portugal tem dois hinos

No primeiro, o espaço auditivo é completamente preenchido pelo decoro barroco de uma orquestra completa, com os seus contrastes melódicos e de intensidade eruditos e toda a perícia técnica que isso exige. O segundo serve-se apenas de vozes do povo e do som de um marchar repetitivo para passar a sua mensagem poderosa com uma simplicidade tão humilde como sábia.

Um foi feito por encomenda, num período histórico que já não faz parte do ideário das portuguesas1; é vazio por ser composto de ultra-clichés, e a sua letra é de carácter bélico Este é reconhecido oficialmente como símbolo nacional. O outro dispensa o reconhecimento estatal para o ser: eleito espontaneamente pelo povo, foi fundador da liberdade que está na base das nossas vidas e que as pessoas valorizam, e por isso está carregado de poder simbólico. O que realmente importa…?

Protestos de 2 de Março de 2013 Nos protestos de 2 de Março de 2013, no Terreiro do Paço, canta-se Grândola, Vila Morena, por volta das 19 horas. Fotografia de Frederico Duarte

O fotojornalista Enric Vives-Rubio gravou este momento em áudio. No mesmo dia, a Grândola foi cantada em várias cidades do país.

O hino também já foi usado para interromper Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, Alberto João Jardim, Paulo Macedo e Marco António Costa.

Tomás Barão