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Mas eu não sou gay, vou à marcha fazer o quê?

18 de Abril, em frente à Embaixada da Federação da Russa Manif contra campos de concentração para gays na Chechénia. Foto por Andreia Carvalho.

Porra, mais uma manifestação importante. Parece que há uma todos os fins-de-semana, e eu aqui exausto, sem forças para nada e com uma pilha de trabalho da faculdade para fazer. É a dos animais, a das mulheres, a dos estudantes do ensino superior, a dos imigrantes, a dos afrodescendentes, a dos refugiados… Infelizmente, de todas as manifestações que aconteceram em 2017, ainda só conseguir estar presente em uma: esta que aparece na fotografia, em frente à embaixada da Rússia. Mais vale um pássaro na mão…

Quando deixei de esconder a minha orientação sexual — bem, mais ou menos, porque mesmo para as pessoas assumidas com mais sorte acabam por surgir sempre algumas situações em que pensamos duas vezes antes de falar — comecei a fazer imenso activismo LGBT, e pouco depois parecia que a minha vida era só isso. Uns anos mais tarde, pensei que se calhar o meu tempo de validade como activista LGBT já estava a passar, porque as pessoas provavelmente já estariam fartas de me ver a bater na mesma tecla e já não ligavam. Entretanto entrei na Faculdade de Belas-Artes e parecia um pouco ingénuo usar uma pulseira arco-íris num sítio onde havia tanta gente queer e com expressões de género não-binárias. Ao mesmo tempo a pressão do trabalho da faculdade obrigou-me a afastar-me um pouco. A pulseira arco-íris acabou por se romper e não arranjei uma nova. Cheguei a perguntar-me como é que algumas colegas na rede ex aequo conseguiam fazer activismo na mesma causa há tantos anos…

Por mero acaso, durante esse meu afastamento consegui conhecer um pouco melhor o mundo. Quando em 2013 ou 2014 eu ouvia o Gustavo Briz dizer que precisamos de um activismo LGBT mais interseccional, que trabalhasse também com comunidades negras, ciganas ou imigrantes, a ideia não me pareceu má de todo, mas na altura eu não compreendia bem a verdadeira importância do que o Gustavo dizia. Foi nesse período de afastamento do activismo LGBT que comecei a perceber. Conheci outras causas. Contactei com o Consciência Negra, com a SOS Racismo, com quem luta para dar tecto a todas os sem-abrigo… Contactei com pessoas novas. E apercebi-me mais do que antes da quantidade brutal de privilégios que tenho, de todas as coisas básicas que estão a faltar a tanta gente. Conheci o mundo mais a sério e, como diria a Mafalda, o mundo é lindo…!, mas só quando é uma miniatura de plástico, porque o verdadeiro é uma grande merda.

Contactar com realidades diferentes aumenta imenso os nossos horizontes, e por isso hoje sei muito mais do que antes.

  • Por exemplo, sei que aquela sensação de estar há muito tempo a bater na mesma tecla e de as pessoas estarem fartas do meu activismo significa que acabei por ficar numa câmara de eco, ou seja, a falar para quem já sabe e para quem nunca vai discordar de mim (a metáfora da câmara de eco é poderosa, fez-me repensar uma série de aspectos da minha vida).
  • Sei que o Facebook é a maior câmara de eco que existe, e que nas zonas mais públicas da Internet não se consegue ter discussões produtivas, portanto o activismo online é uma inutilidade. Há muito trabalho a fazer noturos sítios, mas não na Internet. (Já agora, para quem souber inglês, eis uma banda desenhada excelente sobre as câmaras de eco.)
  • Sei que mais eficaz do que deixar um comentário num site de um jornal é pegar na notícia e discuti-la com a família ao jantar.
  • Sei que o facto de existirem pessoas com expressão de género não-binária nas Belas-Artes não significa que elas não sintam discriminação, ou que não haja pessoas com expressão de género binária a sofrer discriminação.
  • Sei que as tais pessoas queer do paraíso das Belas-Artes se calhar não estão tão seguras quando passam daquela porta e vão para o Metro.
  • Sei que basta descer uns passos até à Rua Victor Cordon para encontrar jovens a dizer que os gays não devem adoptar.

Sei tudo isso porque conviver com outras pessoas tornou-me mais sensível, fez-me conseguir ver para além das paredes da minha casa ou da minha escola. Contactar com outras lutas mostrou-me melhor do que nunca porque é que o activismo LGBT ainda é tão urgente.

Sei que o mais provável é este texto não chegar a ser lido por uma única pessoa homofóbica. Mas também sei que muitas dos leitores ainda não tiveram grande contacto com questões trans, por exemplo. Aprendi que há conversas que têm de ser repetidas individualmente com cada pessoa e com paciência, porque mandar alguém ir ler ou pesquisar no Google nunca vai resolver nada. Não é fraterno, e aprendi que as coisas só mudam com fraternidade.

Mas aprender isso tudo permitiu que me deparasse pela primeira vez com a ilusão das outras pessoas. Há uns meses reencontrei uma antiga colega e quando lhe contava que a rede ex aequo luta contra o bullying homofóbico ela ficou verdadeiramente surpreendida, porque pensava que isso já não existia. Na própria rede ex aequo há gente a defender que as reuniões dos nossos grupos de apoio têm de se orientar mais para o activismo e menos para a choraminguice; que o anonimato hoje em dia já não é tão necessário; que fazer reuniões sobre depressão e suicídio não passa uma imagem apetecível da associação. Não está na moda, pois não. Nos tempos de hoje sentimos a pressão de ser felizes e contentes no Instagram e ter fotos nas redes sociais com cores vibrantes a mostrar que somos super activistas e estivemos na marcha a gritar, como eu. Mas não se trata só de nós próprias, trata-se das outros também. E há pessoas que não têm ainda a liberdade para fazer isso (ir à marcha é uma necessidade e um privilégio, simultaneamente). Há pessoas que precisam de falar sobre depressão e suicídio. E há também as que estão perfeitamente bem com a sua orientação sexual mas a coisa não é assim tão simples quanto parece, porque ser LGBT implica sempre “stress de minoria” e há uma série de sequelas que ficam numa pessoa por ter estado “no armário” — a quem quiser saber mais sobre esta complexidade, aconselho este artigo excelente: The Epidemic of Gay Loneliness. Tudo isto aprendi também com pessoas da rede ex aequo, quando decidi parar de falar por um momento e experimentar ouvir os outras.

Para mim chegou a hora de sair à rua outra vez. Sabemos que em alguns países de África e do Médio Oriente a homossexualidade continua a ter pena de morte ou de prisão. Mas o mundo está todo do avesso e não conseguimos apagar os fogos todos. Precisávamos de fazer manifestações todos os dias, mas também temos os nossos estudos, famílias e empregos. Por isso é que só dá para organizar manifestações quando surge o impulso de alguma notícia mais alarmante, como a do campo de concentração para gays na Chechénia (manifestação da fotografia acima). Infelizmente essas notícias vão continuar a surgir por muitos anos.

Percebi que o activismo LGBT não foi uma fase da minha vida que pudesse arrumar numa gaveta. O caminho não acaba quando nos assumimos e já está tudo bem. Não existe um só armário e um só coming out, e há pouco tempo reparei que eu próprio ainda tenho alguns armários. Por exemplo: no sítio onde dou aulas de dança, de vez em quando penso que se calhar é melhor não mostrar tão facilmente que sou gay, porque os minhas alunos até podem aceitar muito bem, mas talvez os pais e as mães não gostem muito da ideia de ter a filho a aprender com um maricas. Mas o que é pior: perder uma aluno com pais homofóbicas ou perder a liberdade de ser eu próprio sem ter de esconder? Perder uma verdadeira oportunidade de activismo fora da câmara de eco? Agora estou a habituar-me à ideia de que se calhar terei de ser activista LGBT durante toda a vida. Arranjei uma pulseira arco-íris nova.

As pessoas insultam o que desconhecem. Desconhecem-nos a nós porque tentamos parecer discretas — especialmente os homens, que têm de ser machões — e por isso nos tornamos invisíveis. E nós tentamos parecer discretas porque as pessoas nos insultam e não gostamos muito de ser insultadas. É um ciclo vicioso. A única maneira de o quebrar é deixarmos de ser invisíveis. Esta é a importância da visibilidade, que algumas pessoas não compreendiam quando diziam que eu podia ser gay mas não precisava de andar a mostrar por aí. Enquanto nos pedem para sermos discretas, o silêncio e a violência permanecem, e a polícia captura pessoas na Rússia para as espancar por serem LGBT. É por isso que preciso de continuar a dizer “Olá, eu sou o Tomás e sou gay”, ou usar a porra do carimbo na testa quando vou na rua. Não tem absolutamente nada de ridículo — é, na verdade, uma questão de vida ou de morte. Talvez não da minha vida, mas de vida ou de morte das outros.

E a visibilidade não é apenas assumir que sou gay e não tenho problemas com isso: é também seres hetero e cis (ou seja, não-trans) e assumires publicamente que não terás problemas quando uma amigo, ou a tua mãe, ou o teu filho se assumirem como LGBT. O racismo só acaba quando também as pessoas brancas tomarem consciência e lutarem contra ele — da mesma forma a homofobia e a transfobia só acabam quando as marchas LGBT estiverem cheias de pessoas cis e hetero. Isto chama-se ser apoiante. Mais do que tolerar, é saber a importância da visibilidade e assumir publicamente e em todo o lado o teu orgulho de apoiante LGBT!

Portanto, se leste até aqui e achas que até tenho alguma razão, vem comigo à Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa, no próximo sábado, às 17h, a começar no Príncipe Real. Não te preocupes, as pessoas não vão pensar que és gay ou lésbica e atirar-se a ti na marcha, podes aparecer à vontade. E se achas que aquilo são só aberrações, experimenta aparecer numa e vais ver que é super agradável.

No Porto vai acontecer no dia 1 de Julho, e começa às 15h na Praça da República. Não consegui publicar o texto mais cedo, senão tinha-te falado também sobre a de Coimbra, no dia 17 de Maio, a de Braga, no dia 3 de Junho, ou a de Vila Real, que aconteceu este ano pela primeira vez no dia 27 de Maio! Isto ensina-nos que por mais pequena que seja a tua cidade, existem pessoas LGBT que estão dispostas a marchar contigo, e que criar marchas LGBT em novas cidades não é nenhuma loucura. Fala connosco e nós pomos-te em contacto com pessoas da tua cidade.

Outras coisas que podes fazer como apoiante:

  • Usa uma pulseira arco-íris. Não significa “sou LGBT”, significa “sou contra esta estupidez de discriminação que não faz sentido nenhum, e quero que toda a gente seja livre”. 🙂
  • Quando o assunto surgir numa conversa, em vez de evitar, puxa mesmo a conversa para aí, sem medo. Estás a dar visibilidade, e aproveitas para desconstruir alguns mitos.
  • Associa-te a uma associação LGBT. Não te preocupes, não vais estar a “ocupar o espaço das pessoas LGBT”, ou coisa do género. Não são clubes VIP! Toda a gente é bem-vinda e não vão fazer testes à tua sexualidade!
  • Se tens entre 18 e 30 anos, vai a uma formação da rede ex aequo: passas um fim-de-semana numa pousada da juventude em Portugal, não tens de pagar nada, aprendes imensas coisas, fazes amigues e depois podes ir a escolas de todo o país falar sobre temas LGBT. O transporte é pago pela associação, e não, não precisas de ser LGBT para falar sobre esses temas nas escolas. Lembra-te que há muitas pessoas LGBT que não podem dar a cara, e nós, activistas, não chegamos para todas as solicitações. Outra coisa que podes fazer é ajudar a abrir um grupo de apoio na tua cidade. Acredita, mesmo sem teres passado por esta situação o teu apoio pode ser muito importante.
  • Se trabalhas numa escola: fala com a rede ex aequo e com a direcção da escola, para nós irmos lá falar para uma ou mais turmas.

Paz e amor. Nada pode refutar o amor.

Tomás Barão