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“En Contra”: actores e público perigosamente próximos

Em Novembro o Teatro do Instante trouxe-nos aO Bando uma reflexão crítica sobre temas muito actuais, através de uma hipérbole deliciosa da aceleração em que vivemos. Em “En Contra”, todos os prazos são mais curtos, e tudo o que tarda é inútil. E se os contratos de casamento durassem um ano? E se fosse preciso contrato para ter um filho? E se as ambulâncias demorassem tanto a chegar que não fossem necessárias?

“Estou — farta — de — ter — tudo!”

A pertinência desta peça na actualidade e a proximidade entre @s artistas e o público fez-me lembrar o Teatro Invisível, uma das técnicas que Augusto Boal desenvolveu no seu Teatro do Oprimido. A única e grande diferença é que o Teatro Invisível acontece na rua sem estarmos à espera. Acreditamos que a situação é “real” e por isso estamos misturadas e profundamente envolvidas com a acção — somos espectatores. O Teatro Invisível é por isso uma ferramenta poderosa que nos permite perceber quais são as reacções verdadeiras e instintivas das pessoas quando deparadas com certos conflitos ou problemas sociais.

No “En Contra” acontece precisamente o contrário. As actrizes e os actores habitam o mesmo espaço que o público, deslocam-se inclusivé pelo meio do público, mas há uma barreira invisível entre a realidade da acção e a realidade do espectador, que disfruta da peça seguro e protegido com a certeza de que não vai ter que interferir. Pelo menos até ao momento em que @s artistas decidem pôr em causa essa segurança, e se aproximam demasiado do público ou o encaram na cara, ameaçando quebrar a barreira — uma das vantagens do teatro é que podemos acabar completamente vulneráveis na mão d@s artistas.

Tal como na maior parte das criações que se vêem na quinta dO Bando, existe um equilíbrio muito bem conseguido entre (1) a redundância de que precisamos para nos identificarmos e compreendermos as situações apresentadas e (2) a entropia que vai sempre contaminando a cena através dos artifícios alternativos que um teatro corajoso tem a liberdade para experimentar. Aqui há espaço para a contracenação cruzada1 e para a construção de personagens surreais de expressões exageradas. E isso é que dá todo o interesse e toda a magia.

Este é o teatro genuíno, o teatro em que não se finge nada. Não se pretende mimetizar a realidade, não se está a falsificar uma ilusão de algo que parece verdadeiro. Aqui assume-se a diferença, assume-se a liberdade, e é isso mesmo que faz falta.


  1. Para tentar explicar em que consiste a técnica da contracenação cruzada, imagine-se que partimos o palco ao meio e trocamos as duas metades do palco de lugar: as duas personagens que dialogavam frente a frente estão agora de costas, a falar para as paredes. No entanto, a acção continua. É uma maneira de manipular o espaço. 

Tomás Barão