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(des)Acordo Ortográfico: Da defesa à loucura

Já fui completamente militante contra o Acordo Ortográfico, tendo inclusivé iniciado um protesto através da recolha de assinaturas de estudantes menores de 18 anos, que não podem assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos. Por vários motivos me afastei dessa luta. Acabei por me apaixonar por outras causas que precisavam mais de mim, e nas quais terei tido muito mais impacto e ajudado muito mais pessoas. Mas o principal motivo do meu afastamento foi o constatar das proporções ridículas que esta batalha ganhou. Tudo o que é extremismo tende a dar para o torto, e o que ao início era nobre, passou a desonesto.

De um lado, afirmam de forma redutora que nos querem pôr a falar brasileiro (apesar de o acordês diferir muito do português do Brasil), e muitas vezes subentende-se a ideia salazarenta de que o português europeu é o mais verdadeiro e válido. Do outro prega-se a igualdade entre países e o interculturalismo, mas em vez de se celebrar essas diferenças valiosas entre as culturas, concorda-se em tentar aplaná-las através de um tratado. É contraditório! O problema agrava-se quando esse tratado, por incompetência dos seus autores, acaba por fazer exactamente o contrário do que se propõe. É duplamente contraditório!

As estratégias de ambas as facções tornaram-se cada vez mais demagógicas, recorrendo a um simplismo boçal que só denuncia o estado grave da frustração e da loucura. O exemplo mais paradigmático das falácias dos anti-acordistas é demonizar a “nova ortografia” de palavras que, na verdade, não mudaram. Do lado dos acordistas, os “argumentos” também são feios e ofensivos. Eu não recuso o acordo por preguiça, ou por ser um “velho do restelo” que não está para mudar o que aprendeu há muitos anos, como insinuam. Acreditem que não é por preguiça: eu procedo a qualquer alteração na língua que considere bem fundamentada e pertinente.

Loucuras à parte, é preocupante ouvir com tanta frequência — especialmente de “linguistas” ou filólogos — o argumento de que se trata apenas de uma actualização ortográfica, ou seja, de uma mudança da forma e não do conteúdo da escrita, e por isso não se está a mudar significados. Essa é uma perspectiva extremamente ingénua, que passa ao lado de todos os desenvolvimentos do estruturalismo, do pós-estruturalismo e das teorias da comunicação, que ignora como forma e conteúdo se contaminam mutuamente e que, acima de tudo, mostra um desconhecimento perigoso do poder da língua na nossa percepção da realidade.

Dizer que o (des)Acordo Ortográfico é apenas uma questão menor (“eu habituei-me num instante, não sejam preguiçosos!”) é ter uma visão extremamente superficial da realidade, obliterando todo o significado político e ideológico que este tipo de decisões comportam. É ser cúmplice de um abuso de poder do estado, de uma tirania caprichosa.

Há uma grande perversão de prioridades quando temos o sistema educativo num estado lastimoso mas nos dedicamos a fazer pequenas “correcções ópticas” à língua para ficar mais bonitinha e limar umas arestas. Para mim, isso é que é a verdadeira “incapacidade de vislumbrar a floresta” e a “fixação no galho de uma árvore” (fonte). Talvez porque não há competência para limpar a floresta.

 

Tomás Barão