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A importância de um género neutro

Na língua portuguesa existe a palavra saudade. Isso permite-nos lidar com o sentimento de saudade de uma forma mais próxima: sabemos que ele existe, faz parte do nosso quotidiano, está completamente assumido. Numa língua em que não exista a palavra saudade, o sentimento pode existir ainda assim nas pessoas, mas não tendo nome é muito mais díficil relacionarmo-nos com ele. Todas nós já experienciámos momentos em que sentíamos algo que não tinha uma palavra exacta para o descrever, e sabemos que isso por vezes nos deixa desconfortáveis, porque queremos exprimir o que sentimos e, em vez de dizer apenas o nome desse sentimento, somos obrigados a tentar descrever algo completamente abstracto, e precisamos de muitas palavras para o fazer. Para uma pessoa que não tenha muita facilidade em exprimir-se verbalmente (porque há vários tipos de inteligência), isso é extremamente difícil, e essa pessoa pode acabar com certos sentimentos reprimidos, muitas vezes não tem a oportunidade de os partilhar. Os sentimentos que não têm nome, é como se não existissem.

Só o que existe na língua existe na realidade

Alguns exemplos:

  • Numa língua em que exista uma palavra para a tua profissão, estás mais protegida, porque é mais provável a sociedade saber o que fazes e reconhecê-lo (e não tens que o explicar cada vez que te perguntam). Existindo essa palavra, é possível conheceres outras pessoas com a mesma profissão, e é possível existir uma associação de profissionais que lute pelos vossos direitos.
  • Muitas pessoas transexuais, especialmente as que não tiveram Internet na sua juventude, contam que se sentiam muito sozinhas e num mundo desconhecido até descobrirem a palavra *transexualidade*. Essa palavra foi a chave para descobrir outras pessoas transexuais, para a partilha de histórias pessoais e para o apoio mútuo.
  • Se uma doença rara tiver um nome — por mais esquisito e impronunciável que seja —, é provável que o seu portador possa contactar com outras pessoas do país que têm a mesma doença.
  • Numa língua em que existe a palavra “xenofobia” é mais fácil condenar atitudes discriminatórias e ter consciência de que são erradas.

Estes são apenas os exemplos tangíveis de que me consegui lembrar. São incontáveis as maneiras de a língua moldar a nossa forma de pensar e de agir. Aquilo que é padrão (“por defeito”) na língua, também é padrão na realidade. Gostaria ainda de exemplificar essa última relação, mas fica para outra ocasião.

A importância de um género gramatical neutro

A partir dos exemplos anteriores, permitam-me defender a urgência de se criar um género neutro (nem ele nem *ela) na língua portuguesa.

A língua sueca tem um género gramatical neutro que está em constante popularização (com o pronome hen), a caminho de se tornar o género por defeito usado quotidianamente por todas as pessoas (ao contrário do zie inglês — um intermédio entre he e she — que, tal como todos os outros pronomes neutros inventados, tem uma utilização residual).

Num país como a Suécia, posso conversar horas a fio com uma pessoa sem perceber se é um homem ou uma mulher (porque ninguém precisa de ser homem ou mulher para ser legítimo!), utilizando pronomes neutros. Podemos até ficar amigues por muitos anos sem eu ter necessidade de atribuir-lhe um género feminino ou masculino nem de formular uma ideia sobre o que essa pessoa tem entre as pernas. Essa é uma característica que devia pertencer à privacidade de cada um, mas em vez disso é perversamente considerada indispensável para as nossas interacções sociais. Idealmente, o único momento em que teríamos que conhecer esse pormenor seria na eventualidade de querermos ter filhos com essa pessoa.

Agora passemos para Portugal. Quando conheço uma pessoa que não me parece nem homem nem mulher, surgem dois problemas que não acontecem na Suécia: (1) primeiro vou ter que lhe perguntar qual é o pronome que prefere, o que pode ser constrangedor para ambas as partes; (2) essa pessoa vai ter necessariamente que se rotular, optando por “ele” ou “ela”, porque não existe um equivalente em português para o zie.

Assim se demonstra a influência brutal que a língua tem na forma como percepcionamos a realidade. Numa língua em que não existe um género neutro, é impossível as pessoas terem um género completamente neutro, e é muito mais difícil para a população em geral aceitar géneros não binários. A língua é capaz de invisibilizar pessoas e identidades.

A purple circle is a symbol for gender neutrality, derived from the two gender symbols’ colours mixed together, and without the distinguishing cross or arrow used in the gender symbols (♂ and ♀) (fonte)

Tomás Barão